Cavaco Silva e o Destino de Portugal
Consultas Cursos Conferências Artigos Agenda Contactos Home
Artigos
José Prudêncio
Cavaco Silva e o Destino de Portugal
9.3.2006
Quem analisasse o mapa planetário de Cavaco Silva (15.7.1939, Boliqueime, 8:30h) sem conhecer o candidato nem o País, a última coisa que diria é que este seria o próximo Presidente de Portugal com uma vitória à primeira volta sobre quatro candidatos da esquerda. As eleições presidenciais foram ganhas com trânsitos planetários insólitos: Saturno, que representa a organização, a construção e a realização, na área do retiro, da indefinição e da incerteza, do fim de ciclo, do desânimo e da falta de confiança; Neptuno em oposição ao Ascendente representa confusão nas relações e dificuldades de comunicação com o público; Neptuno, estando na área das relações, pode representar uma fase em que se toma a seu cargo alguém muito necessitado de ajuda, em que a partir duma situação de doença se cria uma relação de dependência e de idealização.

O mapa actual de Cavaco Silva é bem a representação do estado do próprio País, e a sua vitória mostra a projecção do Mito Sebastianista do salvador da Pátria. Os aspectos astrológicos de Cavaco Silva são a representação dum País descrente, confuso, indefinido, em fim de ciclo de crescimento e de crise numa Europa que, alargada a 25, pode trazer sérias dificuldades. Portugal encontra-se numa desorganização enorme: a Justiça não funciona e sucedem-se os escândalos, a Segurança Social à beira da ruptura, as contas públicas descontroladas, a Educação alvo de todo o experimentalismo feito à pressa e recebendo a pesada herança de muitas gerações incultas à qual se junta uma filosofia revolucionária de laxismo e facilitismo, uma Administração Pública burocrática de inspiração fascista que tolhe a iniciativa e a liberdade dos cidadãos, uma produtividade das mais baixas da Europa, grande parte dos melhores cérebros no estrangeiro, casos vergonhosos de uso do Estado em benefício próprio, a política nacional subordinada ao interesse das máquinas partidárias.

Perfil do Novo Presidente

O mapa astral de Cavaco Silva é um exemplo de determinação, tenacidade, seriedade e humildade produtiva, capacidade de realização através dum esforço muitas vezes solitário, de compromisso com valores duradoiros; mas também de inovação, independência, domínio de informação e conhecimento estruturado. Mostra também um indivíduo tímido que, por defesa, pode parecer arrogante (Leão no Ascendente), que devido a grande sensibilidade e emotividade aparenta auto controlo e frieza. Defensivo, sensível, tímido: o que parece ser um lado duro, de tabus, é antes reserva, necessidade de auto protecção, de ponderação. Só aparece quando tem mesmo que ser. Não tem interesse na ribalta, sente-se aí incómodo. A conjunção de Sol, Lua e Vénus no Caranguejo mostra uma carapaça rígida para o exterior visando defender as suas emoções, a vida interior e os que lhe são próximos. A ideia de que Cavaco Silva é frio e pouco emotivo é totalmente errada, chega a ser expansivo, impulsivo e caloroso quando em família ou junto de pessoas de total confiança.

Cavaco Silva encarna um outro mito nacional, habitualmente mais esquecido, o do trabalho e da determinação, do português que em períodos de graves crises, à maneira do Marquês de Pombal após o Terramoto de Lisboa, arregaça as mangas e resolve os problemas; ou daqueles outros que perante as adversidades emigram e conquistam a pulso um lugar ao sol.

Que Espera o País de Cavaco Silva?

Com os governos de Cavaco Silva inaugurou-se em Portugal um tempo de normalidade governativa. Finalmente, no pós 25 de Abril, dois governos cumpriram na íntegra o seu mandato. Isso só voltou a acontecer com o primeiro governo de António Guterres.

Irá também inaugurar-se com Cavaco Silva um outro modo de intervenção do Presidente da República na vida política. Seguramente que não está em causa o Presidente ultrapassar os limites de poder consagrados na Constituição, mas sim de entender esses poderes numa perspectiva maximalista.

O artigo 120 da Constituição, entre outras coisas, considera o Presidente da República como “garante do regular funcionamento das instituições democráticas”. Haverá alguém neste País que considere que há um regular funcionamento da Justiça, da Administração Pública, da Educação ou da Saúde? O povo português elegeu um Presidente com perfil de Primeiro-ministro porque quer vê-lo actuar e ser responsável pelos interesses estruturais e pelas reformas do País. Quando os portugueses elegeram Cavaco Silva não foi a pensar nele para cortar fitas ou distribuir condecorações. Este Presidente deverá tomar a seu cargo, em cooperação com os três ou mais Governos que se sucederão ao longo dos seus prováveis dois mandatos, as grandes reformas na Justiça, na Educação, na Administração Pública, na Saúde, na produtividade e eficácia. Nas circunstâncias actuais, Portugal não pode dar-se ao luxo de desperdiçar o contributo activo do Órgão de Soberania com maior legitimidade democrática e maior duração.

O País precisa também desesperadamente de uma psicoterapia colectiva, de inverter a tendência para a auto-comiseração e as interpretações miserabilistas. Os portugueses não se podem esquecer que fazem parte dos 40 países mais ricos do mundo, dos 20% de seres humanos que consomem 80% da riqueza mundial!

Através de orientação ideológica e política, o Presidente precisa fazer renascer a confiança do País nas suas capacidades e no seu trabalho. A revolução ideológica da competência e do progresso, a dignificação da política. Está na moda dizer que o País não é governável. O problema é que os Governos falam na lógica dos interesses partidários e promovem políticas inconsistentes, feitas à pressa. Deverá ser o Presidente o factor de seriedade. Por exemplo, quando o Ministro Mário Lino diz que a Ota é a solução mais adequada, ninguém leva isso a sério pois fala na lógica do partido. Se fosse o PR a dar essa informação, depois de bem informado pelos melhores especialistas, aí seria diferente. Nunca se fala ao povo para falar nas estratégias, não se lhe explica o que se espera dele, apenas se fala para lhe pedir o voto. É preciso acabar com esse novo mito da ingovernabilidade do País que tem apenas a ver com políticas inconsistentes e com a sobreposição dos interesses das máquinas partidárias aos interesses do País. Não se pode governar um povo sem o informar e sem o entusiasmar.

Precisa também duma classe dirigente audaz, “os Homens do Presidente”, que não esteja sujeita à pressão constante da opinião pública e da voracidade dos meios de comunicação. Os melhores homens do país não se sujeitam ao escrutínio de uma comunicação social que deturpa continuamente a realidade através duma lógica da notícia escandalosa. Para se desempenhar um cargo político não é necessário ser santo e ter passado a sua vida numa atitude de beatitude sem jamais haver cometido alguma ilegalidade ou incorrecção. Só apoiados pelo PR, sem estarem sujeitos ao ruído da ribalta, esses homens podem trabalhar de forma eficaz.

Por outro lado, custa muito caro ao País pagar mal aos seus melhores homens. Um País que não consegue atrair, acarinhar, criar as melhores condições de trabalho e de remuneração aos seus melhores cérebros, está condenado a ser governado por medíocres. Há que desenvolver uma educação para a excelência, há que tornar a avaliação um processo normal, acabar com passagens burocráticas em que se nivelam todos por baixo. O cultivo do esforço produtivo, a exaltação dos valores reais do País, o respeito pela cidadania, os direitos do homem e os valores democráticos, o respeito pela Polícia, pelos Tribunais, pelos Professores, por todos aqueles que asseguram a segurança, a justiça e o progresso do País devem ser altamente incentivados. Trata-se também de substituir o pecado da inveja pelo pecado da ambição: não há que invejar o carro do vizinho, há que lutar para ter um melhor.

O Primeiro-ministro Sócrates e o Presidente Cavaco

Comparar o mapa planetário de Cavaco Silva com o mapa planetário de José Sócrates (6.9.1957, Vilar de Maçada, 21:00h) é como comparar um peso pesado com um peso pluma. A importância que José Sócrates terá para Portugal nem vagamente se aproxima à que Cavaco Silva teve como 1º Ministro e terá como Presidente. E no entanto, ambos são protagonistas dum fenómeno único: é a primeira vez que um 1º Ministro da esquerda tem uma maioria absoluta – fruto, principalmente, do demérito do candidato da direita – e um candidato da direita é Presidente – resultado, acima de tudo, da sua imagem pública e do mérito próprio. É a sinergia destas duas realidades que pode trazer a Portugal uma nova ideologia pragmática, um reposicionamento do País na realidade europeia.

Sócrates só tem duas possibilidades, tomar medidas de fundo ou ser banal e acabar por, a partir de 2009, a sua existência política passar a ser de bastidores: ou perde as eleições, ou ganha-as num clima neutro. Um caso paradigmático, foram as medidas tomadas para a Educação, um exemplo do “faça depressa e mal”. Tomam-se medidas que não foram pensadas, cria-se um ambiente péssimo entre os professores, provoca-se reacções negativas nos alunos e, finalmente, medidas que eram importantes são misturadas com disparates, sendo o resultado uma amálgama onde tudo se confunde. Depois lá vem a queixume de que o País é ingovernável, não se percebendo que o disparate é que não serve como governo.

A hipótese de dissolução da Assembleia da República, e de José Sócrates não cumprir na íntegra o seu mandato, é improvável, tanto pela maioria que detém no Parlamento, como por ter um perfil adequado de Primeiro-ministro: eficiente, pouco emotivo, determinado, mental e pragmático, rápido a pensar e a agir. Também pode ter por vezes vistas estreitas e uma obstinação pouco esclarecida. Não é nenhum génio, mas tem condições para ser um melhores Primeiros-ministros do pós 25 de Abril, e lançar as bases, juntamente com o Presidente, para um extraordinário desenvolvimento de Portugal entre 2011 e 2015.

O Futuro de Portugal

Prever o futuro é sempre um exercício conjectural e probabilístico que vale apenas enquanto permite orientar a tomada de decisões relativamente a tendências supostas. Creio que o futuro está apenas tendencialmente definido e não absolutamente determinado. Muitas vezes a melhor previsão é aquela que não se chega a realizar, mas que ajudou a tomar consciência e a compreender mais profundamente os factores envolvidos numa situação e permitiu que se tomassem as medidas para que esse futuro negativo não se chegasse a realizar. Neste sentido o futuro é negociável.

Para além disso, tentar prever as tendências dum País através dos mapas planetários do seu Presidente e do seu Primeiro-ministro é um exercício questionável. Mas é também uma perspectiva complementar que poderá ter alguma utilidade.

Cavaco Silva está numa fase de retiro, de mudança, de fim dum ciclo e de começo de outro. É bom que continue no seu retiro, que reflicta com tempo, que evite ter nos primeiros 18 meses grandes decisões, sob pena de se revelarem prematuras. O melhor é interiorizar a sua função e definir o estilo da sua presidência. A partir de Setembro começa uma fase crucial de avaliação das instituições portuguesas no seu conjunto e das possibilidades económicas do País a longo prazo, que se estende até final de Maio de 2007. Isso implicará consultar e rodear-se dos melhores homens do País, escutar, informar-se em profundidade para delinear uma estratégia global que visa a fiabilidade e solidez das instituições fundamentais do País. Os portugueses elegeram Cavaco Silva para vê-lo agir, querem a optimização da máquina do Estado em todos os aspectos, querem ver erradicados os seus atavismos. Mas o seu trabalho será de bastidores. Reestruturar as instituições fundamentais, trazer dignidade à política e relançar Portugal no caminho da produtividade, do progresso e do orgulho em si próprio, é um processo lento, longe da agitação.

Durante 2006 podemos esperar mais de José Sócrates, ainda que este deva ter um ano com muita tensão entre Abril e Agosto. Acentua-se já em Março, depois também em Agosto/Setembro e Dezembro, as desilusões com vários dos seus Ministros, com o peso da inércia, dos interesses instalados à sua volta. Precisa de fazer um esforço enorme de independência e persistência. Setembro de 2006 até Junho de 2007 será o momento decisivo de tomada e concretização de decisões que poderão marcar o futuro de Portugal. Vai ser neste período que José Sócrates se irá confrontar com a sua realidade, com aquilo que realmente é ou não capaz de fazer enquanto Primeiro-ministro. Se essas medidas de fundo forem tomadas, pode-se esperar uma melhoria e um avanço consistente para Portugal entre o Outono de 2007 e todo o ano de 2008. Até lá, parece ilusório esperar melhorias significativas.

No primeiro mandato de Cavaco Silva, tirando o período de Setembro de 2007 a Outubro de 2008, em que deverá ser mais visível por razões positivas, a sua acção será o de uma eminência parda. O ano de 2008 pode ser o de uma retoma de fundo de Portugal. Um período de inovação e desenvolvimento, com níveis altos de confiança e optimismo. O ano de 2009 deverá ser normal, a continuidade do que tiver sido realizado. Em 2010, há alguma tensão, períodos de contenção. Em 2011, se assim o entender, ganhará as eleições presidenciais com toda a facilidade. O segundo mandato deverá ser muito mais interessante, diria mesmo extraordinário. Corresponde a um período, entre 2011 e 2015, em que Portugal pode alcançar um nível de progresso e de desenvolvimento a todos os níveis: expansão económica, inovação, novas oportunidades, inspiração renovada, um patamar de desenvolvimento e de organização como nunca existiu em todo o século XX. Cavaco Silva tenderá a concluir o seu segundo mandato em estado de graça, num clima que pode chegar a ser de idealização e veneração.

© José Prudêncio - Lisboa 2006